Sei que não é de meu costume escrever cartas, sei também que não é de seu costume receber cartas, mas às vezes temos que sair um pouquinho da rotina, e essa é uma dessas vezes. Bom, primeiramente, sem querer ser desagradável ou grosseira de forma alguma, você está se tornando insuportável. Antes não achava, pois não intendia muito da vida, mas de lá para cá eu vi coisas, eu ouvi, senti, e mais ainda, eu tenho coisas. Coisas que me assombram, mas isso não vem ao caso. Você deve pensar em mim como uma criança que não sabe o que fala, mas acredite em mim, eu aprendi muito com o tempo e me foquei, acima de tudo, em aprender sobre você. O que você faz; Como você reage quando falo de certas coisas, como o cigarro; Sobre o que, mais ou menos, você fala quando está bêbado; Como eu faço para ter pelo menos um pouquinho da sua atenção; Como faço para fazê-lo perceber que o que eu falo é para o seu próprio bem, o que eu já estou cansada de ouvir de muitas pessoas e sei que você também está; Entre outras coisas. Sei que é desagradável falar sobre esse assunto, mas tenho que tentar lhe convencer, afinal, eu só tentei quando você estava bêbado, então... É com um grande aperto no peito que escrevo esta frase, pois você não tem noção do quanto me dói apenas lhe observar sentado na mesa da cozinha com um olhar caído, cheirando mal, xingando e falando besteira. Me dói mais ainda lembrar do passado, de quando derramava lágrimas e mais lágrimas apenas de ver meus pais, as pessoas que eu mais amava e que eu mais amo discutindo, agredindo uns aos outros verbalmente e fisicamente. Apesar de tantas lágrimas derramadas, não foram nada comparadas às que derramei quando tudo se acalmou e dei graças à Deus que todo o sofrimento acabou, que aqueles dias em que minhas pequenas mãos não conseguiam tampar meus ouvidos para não ouvir os xingamentos e os gritos acabaram. Naqueles dias, palavras feias das quais eu nem sabia o significado entravam em meus ouvidos, brigas das quais eu nem sabia o motivo eram vistas por meus olhos, cheiros que eu nunca havia sentido como o cheiro de bebidas alcóolicas eram sentidos em meu nariz. Eu nunca quis passar por essas coisas, mas passei. Eu odiava ter que assistir suas brigas, mas assisti. Eu odiava ouvir a voz de vocês ser usada para coisas ruins, mas ouvi. Eu ouvia cada palavra, assistia cada briga, e chorava em todas elas também. Eu tinha um sonho, provavelmente o sonho que toda criança tem, de ver meus pais juntos e felizes, me abraçando e fazendo coisas boas, coisas que eu gostava de fazer junto comigo. Às vezes eu conseguia isso, mas a alegria que eu conseguia juntar logo era arrancada do meu peito para dar espaço à tristeza que suas brigas me faziam acumular. Sei que existem muitas pessoas no mundo que passaram ou passam por situações iguais ou até bem piores do que essas, por isso só essas pessoas sabem como isso dói. Às vezes parece que meu corpo não aguentará toda essa dor, mas eu acabo chorando e melhoro. Bom, agora que você sabe mais ou menos o que eu sinto, queria lhe dizer, derramando mais lágrimas, que você não consegue imaginar o quanto eu te amo e o quanto eu agradeço por você ser meu pai mesmo me decepcionando às vezes e me fazendo chorar, pois eu choro justamente porque me importo com você, porque quero apenas o seu bem, e por que eu não iria querer nenhum outro pai a não ser você. Para mim você é o melhor pai do mundo, não importa o que as outras pessoas dizem e o que você fez ou faz, pois você é o meu pai.
De sua filha,
Ana Alice